sábado, 10 de novembro de 2012

Análise do poema "O mar português"


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.




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Como bem indica esta pessoana de renome, o poema «Mar Português» surge na continuação do que é a Mensagem. No entanto, e se tal for possível, é ainda mais hermético do que aquela, porque se na Mensagem se invoca o Mar Português ainda físico da conquista e depois lentamente transcendental do espírito, no poema «Mar Português» a invocação é já plenamente transcendental, focada na importância da obra do próprio Fernando Pessoa num futuro renascer da alma nacional. 

Identificam-se temas comuns entre este poema e a Mensagem. Nomeadamente a referência ao mar simultaneamente espelho e abismo, onde a alma se perde no sonho e depois do sonho se reflecte num projecto de futuro esplendoroso porque plenamente espiritual e desligado da terra. 


Há o reconhecimento que nada mais há a buscar no mar físico, mas que resta a exploração do mar espiritual, onde Pessoa quer ser empossado argonauta, porque é através da poesia, da linguagem do inefável, que se podem descobrir os mistério da alma e da vida, escondidos à visão normal dos homens. 


Um primeiro ciclo exauriu-se: o da descoberta do mar. Um novo ciclo se anuncia: a segunda vinda, a descoberta da alma, do mar espiritual. 


É a água, o elemento água, a paz, a solidão, a reflexão, o contínuo movimento de renovação e desafio que permite a revelação da profecia. É a água que simboliza a latência do sonho, a água nua, despida e apenas espelho ou abismo, que mostra e que esconde. Combinação proibida de opostos, como a própria poesia, que se por um lado comunica, nada diz de imediato, mas antes quer provocar em quem a lê a reflexão mais profunda ou a reflexão mais imediata, o abismo e o espelho. O mar, o sonho e a poesia são os três elementos que Dalila Pereira da Costa indica como sendo os vectores essenciais da alma portuguesa. Não interessa a ambição, mas o sonho, não interessa o destino, mas a viagem, não importa nada que se acabe na sua própria realização, porque nada que se consuma inteiramente pode ser eterna. 


Portugal, pátria à beira água é também pátria à «beira-mágua». O sofrimento e a dor marcam a viagem ás ilhas afortunadas da alma, porque nenhuma grande descoberta se faz sem sacrifício de monta e relevo. 


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sonho de D. Manuel


D. Manuel logo que assume o poder pretende dar continuidade aos desejos do seu antecessor, na conquista de novos mares e de novas terras. Uma noite sonha com «vários mundos», «nações de muita gente, estranha e fera» (IV, 69) e vê «dous homens, que mui /velhos pareciam / de aspeito, inda que agreste, venerando» (IV, 71). Estes apresentam-se como sendo os rios Ganges e Indo, que afirmam a D. Manuel que é tempo de mandar «a receber de nós tributos grandes» (IV, 73). O sonho prenuncia os êxitos, a fama, o poder e a glória de que se cobrirá o Rei por ter conseguido descobrir o Oriente.
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Os navegantes e, em especial, o comandante das naus, Vasco da Gama, ultrapassam a sua individualidade ou a particularização do herói coletivo, que é o povo português. São símbolo do heroísmo lusíada, do espírito de aventura e da capacidade de vivência cosmopolita.
Nos vários episódios e no recurso à mitologia, há elementos simbólicos importantes que podem ajudar na interpretação dessa mensagem humanista e de exaltação lusíada que Camões nos deixou.

 O sonho é um símbolo do que pode o espírito humano quando procura pôr em prática as suas aspirações. É símbolo da capacidade de conquista, de vontade de ir sempre mais além, de desbravar o desconhecido. E símbolo da política expansionista portuguesa na época.


Estrutura do Sonho


Apresentação de condições atmosféricas e Celestes (divinas) favoráveis

“claro Céu”= a proteção divina (“guardava”)

Classificação da ação de D. Manuel I:
§  Sobrevalorizada pelo superlativo em “tão árdua”;
§  Dupla adjetivação de caráter positivo em “subidos e ilustres movimentos”






Justificação:
herança dos antepassados: “Manuel, que a Joane sucedeu / no Reino e nos altivos pensamentos”;
                       



Exaltação da empresa marítima: “tomou mais a conquista do mar largo”


§    Advérbio de quantidade “mais” reforça a continuidade da ação desenvolvida pelo antecessor, D. João II, mas sublinhando que a ação de D. Manuel I foi mais longe;
§    Adjetivo “largo”- sublinha a grandiosidade da extensão do ato.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mitologia n` Os Lusíadas


Camões, apesar de ser católico, utiliza a mitologia pagã por quatro razões:



a)obedece a uma regra dos poemas épicos (todas as epopeias a devem utilizar);
b)assegura a unidade interna da acção da epopeia (colocando em oposição humanos e deuses);


c)embeleza a intriga (de outra forma seria um mero relato da viagem);


d)serve para glorificar o povo português, comparando-o aos deuses (valoriza os homens a quem Neptuno e Marte obedeceram).




Na sua epopeia Venus é a deusa  que apoia os heróis portugueses. Vénus era filha do Céu e da Terra. Também se diz que era filha do Mar e que Saturno preparou o seu nascimento, formando-a da espuma das águas. E há ainda quem afirme que era filha de Júpiter e da ninfa Dione, sua concubina. Conta-se que Vénus, logo após o seu nascimento, foi arrebatada para o céu, em grande pompa, pelas deusas Horas, que presidiam às estações, e todos os deuses a acharam tão formosa, que a designaram deusa do amor e cada um deles queria desposá-la. Foi Vulcano que a recebeu por mulher, por ter forjado os raios com que Júpiter combateu os Gigantes, que queriam apoderar-se do céu. Mas Vénus, não podendo suportar o marido pela sua grande fealdade, entregou-se à vida dissoluta e teve muitos amantes, entre os quais Marte, filho de Juno e deus da guerra, de quem teve Cupido. Vulcano, que a surpreendeu com Marte, cercou o lugar com uma rede invisível e convocou todos os deuses para que presenciassem o espetáculo.


Baco era o filho do deus olímpico Zeus e da mortal Sémele. Deus do vinho, representava seu poder embriagador, suas influências benéficas e sociais. Promotor da civilização, legislador e amante da paz. Líber é seu nome latino e Dioniso é seu equivalente grego.Juno, sempre preocupada e agastada contra as numerosas concubinas de Júpiter, seu marido, aconselhou Sémele, quando esta estava grávida, a pedir a Júpiter que se lhe mostrasse em todo o seu esplendor, ao que ele acedeu com dificuldade. A majestade do deus desencadeou fogo no palácio, e Sémele morreu nas chamas. Com receio de que Baco, que Sémele trazia no ventre, viesse também a morrer queimado, Júpiter recolheu-o numa coxa até ao tempo do seu nascimento. Foi então confiado secretamente a Ino, tia de Júpiter, que o criou com o auxílio das Horas e das ninfas. Quando chegou a homem, Baco conquistou as Índias e passou depois para o Egipto, onde ensinou a agricultura aos homens e deu início à plantação da vinha. Salvou-se sempre das perseguições contínuas de Juno e transformou-se em leão para devorar os Gigantes que ameaçavam Júpiter e o céu. Depois da vitória sobre os Gigantes ficou a ser o deus mais poderoso, a seguir a Júpiter. Baco representa-se, geralmente, sobre um coche puxado por tigres, linces ou panteras, às vezes com uma taça em uma das mãos e na outra um tirso, do qual se servia muitas vezes para fazer brotar fontes de vinho. Na sua epopeia Baco é o opositor dos heróis portugueses.

Adamastor foi o mítico gigante baseado na mitologia greco-romana, referido por Luís de Camões n'Os Lusíadas, que representava as forças da natureza contra Vasco da Gama sob a forma de uma tempestade ameaçando a ruína daquele que tentasse dobrar o Cabo da Boa Esperança e penetrasse no Oceano Índico, os alegados domínios de Adamastor. O Adamastor tem, não só o papel de reforçar o positivismo da viagem, assim como o Velho também; e de enfatizar o "mais que humano feito", referido na proposição. Realçando a coragem do Herói, individual ou coletivo, que enfrenta, apesar do medo, desafios mais que do poder do Homem, porque o herói renega a sua emoção, segue a ordem de el-rei. Mais à frente o narrador mostra-nos como este grande gigante tem uma fraqueza, um amor impossível, mostrando que até o mais poderoso ser padece dessa doença benigna, que é o amor.



Apolo é o Deus dos jovens que simboliza a pureza e a perfeição. Apolo representa a harmonia, a moderação a ordem e a razão.









Neptuno era um deus romano do mar, inspirado na figura grega Posídon. Filho do deus Saturno e irmão de Júpiter e de Plutão. Originariamente era o deus das fontes e das correntes de água.
Mercúrio era o deus encarregado de levar as mensagens de Júpiter. Era o deus da eloquência, do comercio, dos viajantes e dos ladroes.


Vulcano, Deus do fogo, era filho de Júpiter e de Juno. Como era extremamente feio,  Júpiter lançou-o para fora do céu; foi cair na Ilha de Lemnos, quebrou uma perna e ficou coxo. Desposou Vénus, que não o pôde suportar, por causa da sua fealdade e lhe foi muitas vezes infiel. Vulcano fabricava raios para Júpiter, que com eles ficou vitorioso na luta contra os Gigantes, que queriam apoderar-se do céu. Vulcano tinha as suas forjas nas ilhas de Lemnos e Líparo e ainda no interior do monte Etna, na Sicília, onde trabalhavam os Ciclopes, seus oficiais, que tinham um só olho a meio da testa. Vulcano representa-se geralmente acompanhado por Vénus, como figura central; às vezes acompanhado de Vénus, sendo ele a figura principal.


Marte era o deus romano da guerra, equivalente ao grego Ares. O povo romano considerava-se descendente daquele deus pelo facto de Rómulo ser filho de Réia Sílvia ou Ília, princesa de Alba Longa, e Marte. Filho de Juno e de Júpiter, era considerado o deus da guerra sangrenta, ao contrário de sua irmã Minerva, que representa a guerra justa e diplomática. Os dois irmãos tinham uma rixa, que acabou culminando no frente-a-frente de ambos, na frente das muralhas de Tróia, da qual Marte se saiu perdedor. Marte, apesar de bárbaro e cruel, tinha o amor da deusa Vénus, e com ela teve um filho, Cupido e uma filha mortal, Harmonia.




As Tágides são as ninfas do Tejo a quem Camões pede inspiração para compor a sua obra Os Lusíadas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Estrutura interna e externa de Os Lusíadas

Estrutura Interna

Proposição - onde o poeta expõe, em síntese, o que vai cantar;
Invocação - o poeta faz um apelo a seres sobrenaturais, às musas, para que o ajudem a contar os feitos heróicos dos humanos;
Dedicatória - o poeta dedica o poema ao rei D. Sebastião;
Narração - o poeta narra os acontecimentos da História de Portugal, cuja acção central é a viagem do caminho marítimo para a India.
Esta narração inicia-se in media res , isto é, a acção não é narrada pela ordem cronológica dos acontecimentos, inicia-se já no decurso da viagem, sendo a parte inicial narrada posteriormente, num processo de analepse.

Estrutura externa
Os Lusíadas está dividida em dez cantos, cada um deles com um número variável de estrofes, que, no total, somam 1102. Essas estrofes são todas oitavas de decassílabos heróicos, obedecendo ao esquema rimático “abababcc” (rimas cruzadas, nos seis primeiros versos, e emparelhada, nos dois últimos).

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Mitificação do Herói

A epopeia Os Lusíadas mostra a história do povo que teve a ousadia da aventura marítima e a intenção em exaltar os heróis que construíram e alargaram o Império.
Os navegantes e, em especial, Vasco da Gama, ultrapassaram a sua individualidade do herói colectivo (povo). São símbolos do heroísmo lusíada, do seu espírito de aventura e da capacidade de vivência cosmopolita.
A viagem exprime a passagem do desconhecido para o conhecido, ou seja, da realidade do Velho Continente e dos seus mitos indefinidos para novas realidades de uma planeta a descobrir.
Camões, ao contrário dos épicos anteriores, escolheu um herói colectivo, procurando que a sua epopeia anunciasse a história de todo o povo, afirmando que todos os navegantes que chegaram à Índia e todos os heróis lusíadas merecem a mitificação.
Nega a existência de deuses, dizendo que estes são criação do homem para tentar explicar o que lhes parece difícil de explicar.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Mensagem, Fernando Pessoa



Portugal e Mensagem têm 8 letras. O oito é um número de harmonia, mas também um número ligado aos templários, mais precisamente à cruz Templária que tem 8 pontas. É a mesma cruz que depois vai nas caravelas, já cruz de da Ordem de Cristo, seguimento natural dos Templários depois da extinção destes por ordem Papal. Assim, Pessoa num primeiro sentido diz-nos que a "Mensagem" é "Portugal" e que "Portugal" é a realização da missão da Ordem de Cristo e - por descendência - da Ordem do Templo.



Os poemas do livro estão organizados de forma a compor uma epopeia fragmentária, em que o conjunto dos textos líricos acaba formando um elogio de teor épico a Portugal. Traçando a história do seu país, Pessoa envereda por um nacionalismo místico de carácter sebastianista.


O livro contem  44 poemas agrupados em 3 partes, representam as três etapas do Império Português: Nascimento, Realização e Morte, seguida de um renascimento.


 O Brasão;
O Mar Português e no futuro na terceira;
 O Encoberto;

Brasão - conta-se a história das glórias portuguesas. Se estrutura como o brasão português, que é formado por dois campos: um apresenta sete castelos, o outro, cinco quinas. No topo do brasão, estão a coroa e o timbre, que apresenta o grifo, animal mitológico que tem cabeça de leão e asas de águia. Assim se dividem os poemas desta parte, remetendo ao brasão de Portugal

Mar português - são apresentadas as navegações e conquistas marítimas de Portugal. Apresenta as principais etapas da expansão ultramarina que levou Portugal a ocupar um lugar de destaque no mundo durante os séculos XV e XVI: "E ao imenso e possível oceano / Ensinam estas Quinas, que aqui vês, / Que o mar com fim será grego ou romano: / O mar sem fim é português." Esta segunda parte (O Mar Português) é formada por 12 poemas.

O Encoberto - é apresentado o mito sebastianista de retorno de Portugal às épocas de glória. Apresenta o misticismo em torno da figura de Dom Sebastião, rei de Portugal cuja frota foi dizimada em ataque aos mouros em 1578. Muitas previsões, como a do sapateiro Bandarra e a do padre Antônio Vieira, prevêem o retorno de Dom Sebastião para resgatar o poderio de Portugal, criando o Quinto Império, marcando a supremacia de Portugal sobre o mundo: "Grécia, Roma, Cristandade, Europa, os quatro se vão Para onde vai toda idade. Quem vem viver a verdade Que morreu dom Sebastião?" Nesta terceira parte, cada uma de suas três subdivisões é, por seu turno, subdividida, respectivamente, em 5, 3 e 5 partes.

Velho do Restelo


Personagem de Os Lusíadas que constitui uma espécie de defensor da antítese à tese expansionista. Com efeito, este velho  «de  aspecto venerando», com  «um saber de experiência feito», e, como tal, «digno de ser ouvido»  - para usar as expressões de Luís de Camões - interveio junto dos navegadores portugueses que se aprestavam para partir para a empresa marítima da Índia, no sentido de lhes alertar contra os perigos da ambição em excesso e da cobiça pelas riquezas vindas do Oriente. Como solução alternativa, advogava a ida para o Norte de África, onde havia praças-fortes a conquistar aos Mouros.

Deste modo, o Velho do Restelo representa a voz da razão num momento de euforia e deslumbramento, a voz da experiência perante a irreverência. Em certa parte, os seus conselhos acabaram por se revelar proféticos, pois a prosperidade das Descobertas cedo se revelou fugaz, seguindo-se a decadência económica e territorial. Além disso, as contrapartidas da Expansão eram óbvias: jovens viúvas esperaram eternamente pelos maridos, a sociedade portuguesa tornou-se ociosa e cega pela ganância.